UM FESTIVAL
QUE ESTIMULA DIÁLOGOS

 

“Além da programação em si, o festival tem trabalhado ao longo do ano com crianças da região, fazendo do evento em si apenas o ponto mais visível de uma atividade ampla. Por isso, pela sólida proposta conceitual, muito mais do que mero pretexto ou sugestão, e pela realização de alta qualidade, o Artes Vertentes é hoje um dos mais importantes eventos do calendário da música brasileira”.

 

João Luiz Sampaio

Estado de São Paulo

_______

O início de um novo ciclo. Após anos de descobertas, encontros, desafios e superações, aprendemos a cada edição e amadurecemos através dos nossos erros e acertos. Podemos, no entanto, asseverar que, após dez anos, a nossa crença na arte como a mais revolucionária ferramenta de transformação humana e social permanece inabalável. E não estamos sozinhos nesta convicção! 311 artistas de 27 países diferentes ajudaram a construir a história do Festival Artes Vertentes — Festival Internacional de Artes de Tiradentes —,  hoje consolidado e reconhecido como um dos mais importantes festivais de artes do país. O que isto representa? A história da primeira década do Artes Vertentes é, sobretudo, um tempo de amizades que floresceram nas ruas da cidade barroca mineira e que se renovam a cada primavera graças ao maior patrimônio que Tiradentes abriga: o seu povo. 

Desde a sua criação em 2012, o Artes Vertentes deixou de ser apenas um festival que durante onze dias apresenta uma intensa programação artística nas suas diversas linguagens para se transformar numa “ocupação” contínua da cidade por meio de impulsos artísticos perenes, seja através de residências com artistas de diversas partes do mundo ou da Ação Cultural Artes Vertentes, que  proporciona uma iniciação no universo da arte para a população infanto-juvenil de Tiradentes. Os frutos desta constante efervescência cultural permitem-nos agora alçar vôos ainda mais altos rumo ao Centro Artes Vertentes de Cultura, previsto para ser inaugurado no segundo semestre de 2023, na comunidade rural da Caixa d’Água da Esperança, num imóvel desativado cedido à Associação dos Amigos do Festival Artes Vertentes graças a parceria firmada com a Prefeitura de Tiradentes.

Após termos atravessado juntos alguns dos mais sombrios capítulos da nossa história recente, nós todos começamos um novo ciclo em 2022, quando se comemora também os 200 anos da Proclamação de Independência. Neste momento de efeméride, a 11ª edição do Festival Artes Vertentes deseja tecer diálogos sobre (in)dependências, evocando vozes historicamente silenciadas em nossa sociedade que trazem à tona outras versões da História - versões dissidentes, decoloniais, que precisam ser escutadas se quisermos sonhar efetivas independências. 

Em 1822, quando se proclamava uma Independência nestas terras, estava em curso há 14 anos a Guerra contra os Botocudos, projeto de extermínio de diversas etnias indígenas hoje conhecidas como Borum. Nesta época, enquanto  o perverso tráfico negreiro continuava, burlando leis e qualquer dignidade humana, o Brasil destinava aos professores salários inferiores ao que se pagava aos feitores de escravos nas fazendas. Assim, quais independências comemorar? Por meio das linguagens artísticas que tradicionalmente integram o Festival Artes Vertentes — artes visuais, música, artes cênicas, literatura e cinema — queremos evocar Antonieta de Barros, que vislumbrou na Educação a verdadeira arma na luta pela independência; Arthur Bispo do Rosário que, como uma “anti-Penélope”, transformou em arte os uniformes azuis do hospício, em um ato de subversão e lucidez contra a prisão manicomial; as diversas vozes dos povos originários que apontam caminhos para Brasil Futuros necessariamente (inter)dependentes com o planeta que habitamos; além de inúmeras outras vozes e olhares que refletem sobre o tema por meio da arte.

Promovemos tal diálogo em Tiradentes, onde as ideias de liberdade foram outrora forjadas como deslealdade e insurgência, também movidos pela crença de que dependemos uns dos outros — não no sentido de subordinação, mas de conexão — para avançarmos num processo civilizatório digno, para vivermos em paz! 

Durante os próximos onze dias, convidamos você a uma imersão no universo da arte em toda a sua diversidade e pluralidade. Se “a arte existe porque a vida não basta”, como disse o poeta, que ela nos ajude a enxergar a alteridade e a aceitar a pluralidade. Esta sim, uma verdadeira independência a ser comemorada. 

Desejamos a todos, todas e todes um excelente Artes Vertentes!

Maria Vragova
Diretora executiva

Luiz Gustavo Carvalho
Diretor artístico